Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Afogamento I

Eu afogo minha vontade de morrer em um mar de álcool. Schopenhauer nos ensinou que o que é noumena é a vontade de viver, através da qual se pode conhecer o que de outro modo é inconhecível. Eu poderia ensinar que o que é phenomena é a vontade de morrer, através da qual as coisas se consomem umas nas outras, deixando de existir para dar lugar a uma outra. Minha mente trabalha furiosa à despeito da minha vontade, reflexo da minha vontade de viver; eu afogo o falatório mental em um mar de álcool, reflexo da minha vontade de morrer.

Os dias de trabalho, chamados paradoxalmente de "úteis", passam lentamente sem qualquer relevância, tentando ocupar o colosso da minha mente com tarefas medíocres, sem sucesso. O tempo livre é todo desperdiçado na fútil análise do próprio ócio e do que fazer com ele. Acabam os cinco dias compactados em uma lembraça curtíssima idêntica à tantas outras das semanas anteriores. Então chega a sexta-feira.

Chego em casa do trabalho como se o último domingo tivesse acabado de terminar. Ponho uma sinfonia qualquer para tocar, algo do século 20, porque estou cansado do kitsch do passado, da primordialidade, dos bons tempos, dos clássicos -- da certeza. Enquanto tomo um longo banho penso no fogo. Sento no chão do box, com a porta do banheiro aberta, com água escorrendo pelo corpo e música pelos ouvidos, três sentidos em seis cheios de simples sensações -- penso no fogo, na combustão, no consumo, no cessar, e na ação imediata, imponderada, impulsiva, furiosa -- que transmuta o mundo. Mas essas coisas não são de mim. Penso nelas como um viajante pensa em um destino distante.

De mim é um abismo longo, um deserto vasto, vazio, em mim a vontade de morrer se concretiza. Esses pensamentos escorrem do primórdio do meu ser para fora como uma secreção viscosa da glândula que é a minha mente. Eventualmente me entedio com a parede branca de azulejos; ponho um tênis, calça cargo, camisa vermelha, e deixo novamente meu lar vazio e sem luz.

Desço pela minha rua até alcançar o cemitério; acompanho em silêncio completo a longa parede do cemitério contemplando o descanso eterno de mentes que não se perturbarão mais. Aqui está enterrada minha avó, me lembro claramente de chegar em casa ainda jovem e encontrar a empregada em pânico, subir apressadamente as escadas e encontrar minha avó no absoluto silêncio dos mortos, me lembro de verificar o fato checando pulso e coração, e finalmente sentir um imenso alívio por aquela pessoa que não vai mais experimentar qualquer sofrimento -- que não vai mais experimentar qualquer coisa.

O cemitério eventualmente chega ao fim no grande cruzamento que leva a Real Grandeza até o túnel velho; prossigo em direção ao Humaitá, passando na frente de boites alternativas onde os jovens vivem o kitsch do novo, do inovador, do nunca-feito-antes, do sofisticado -- o kitsch do avant-garde. Para eles eu pareço sombrio e sem cor, para mim eles se parecem borrados por fora e ocos por dentro. O kitsch do novo é uma ilusão de felicidade, de euforia, fabricada com cores berrantes e sons rápidos, uma felicidade que rapidamente se mostra desesperada como uma longa sede. Finalmente chego ao bar onde Andressa me espera.

Já na distância a vejo, sentada na varanda do lado de fora da casa, onde às sextas-feiras tocam bandas desconhecidas que levam qualquer tipo de som que se assemelhe de algum modo ao rock 'n roll. Ela toma uma caipirinha e balança a cabeça cantarolando a música. Só me vê quando já estou na frente dela.

-- André! -- diz, retornando de sua distração à realidade.
-- Oi, querida. Me desculpe pelo atraso.
-- Se você tivesse demora mais dez minutos, eu teria ido embora.

Diz isso com uma mão na cintura e a outra apontando acusadoramente, com uma careta no rosto. Andressa é uma pessoa muito plástica, e expressa com o corpo muito mais que com as palavras. Nos sentamos; na varanda deste bar as pessoas se sentam em banquinhos altos ao redor de mesas redonda toscas de madeira, uma tentativa de fazer um "saloon" do velho oeste americano.

Ela me conta longa história sobre seu marido, uma pessoa que admira mas não ama. Me faço passivo, sou um receptáculo de palavras e de chopp. Aqui se serve um chopp feito na serra que não se encontra em qualquer outro lugar da cidade, um chopp amargo como o desabafo de Andressa. Andressa me diz freqüentemente que eu sou um excelente ouvinte, mas eu não sou como o homem com quem viveu Sidharta no romance de Herman Hesse, que possuía a arte de ouvir com vivacidade; eu ouço como um vasto abismo ouve o som dos ventos que o penetram, eu sou um ralo por onde escorre qualquer quantidade de água da pia. Não me interesso pelo marido de Andressa, mal me interesso por Andressa; me interesso por Andressa por comparação, já que me interesso menos ainda por qualquer outra das inumeráveis coisas que hão no mundo. Me interesso pela cerveja, que entra com tanta facilidade quanto as palavras.

-- O que há com você hoje, amigo? Você parece estranho. -- diz Andressa.
-- Já passou da meia-noite?
-- Já, mas e daí?
-- Você não sabe que dia é hoje?
-- É algum dia especial?
-- Hoje é o Equinócio de Primavera.
-- O que é um Equinócio? -- diz, apoiando-se na mesa nos dois cotovelos, numa expressão exagerada de curiosidade.
-- Lembra-se do diagrama do sistema solar, da órbita da terra ao redor do Sol, que nós vemos na escola?
-- Sim, sim.
-- Então, essa órbita tem dois pontos onde a quantidade de luz que incide no hemisfério norte e no hemisfério sul são iguais.
-- Hu-hum. -- diz, com uma cara sincera de que não sabia a importância daquilo.
-- Nesses dias, o tempo de luz e o tempo de noite é exatamente igual. -- completo.
-- Sério? Exatamente igual? Nossa! -- diz, com um sorriso inocente.

O sorriso de Andressa é radiante, confesso a qualquer um que uma mulher não precisa mais que sorrir para me cativar. Quero estimular esse sorriso, portanto continuo falando sobre os Equinócios, sobre a importância mística do dia quando acontece a transição do calor máximo e do calor mínimo, as estações do frio e do calor, disto como símbolo de transcendência, de como isso é codificado nos mitos das várias culturas. Minha mente viaja pelas distâncias estimulada por esse assunto somado ao álcool que percorre as minhas veias.

Os mitos do Equinócio de Primavera são mitos de vida, quando o fogo, que aquece, retorna à natureza, e quando a terra é tornada fértil, mudando da cor preta do inverno para a cor verde dos gramados. Mas essas coisas não são de mim, e a insinuação da vida como uma chama que surge é ridícula diante da vastidão fria que é minha vontade de morrer. Ela cria um pulsar dentro de mim, uma ânsia, que clama pelo álcool, pelo torpor da mente, um progressivo estado de silêncio. Zonzo, os objetos diminuem em quantidade no espaço ao meu redor, que se resume a uma mesa com Andressa à minha frente.

Não me interesso pelo que está acontecendo, mesmo assim converso com Andressa sobre as amenidades que a apetecem. Converso sobre qualquer coisa que ela quiser, não me importa fazer isso ou outra coisa qualquer -- poderia mesmo ter ficado em casa deitado no chão enquanto corria sobre mim o vento frio vindo da varanda e a agressiva sinfonia que escolhi por acaso -- mas percebo que ainda assim vim para este bar encontrar esta mulher, e a percepção de mais esta insinuação do impulso para viver aumenta ainda mais o pulsar da morte. Por quê, realmente, vir até aqui? Por que não ficar em casa em repouso? Sair de onde você está para ir a outro lugar é mudar, mas qual é o propósito de mudar? Eu não quero alcançar nada, realmente, mas vivo sob o jugo da vontade de viver que é natural do meu corpo.

-- Eu poderia ter ficado em casa deitado no chão. Por quê eu vim até aqui, Andressa? Por quê não fiquei em casa?
-- Você veio me ver, ora, e veio beber cerveja.

Percebo que realmente queria vê-la, e que mesmo a vontade de afogar a vida na embriaguez da morte é, ainda assim, uma vontade. A estranha ironia me faz sorrir; sorrindo, faço ela sorrir; percebo também que quero vê-la sorrir, e de repente sinto menos frio. Me levanto, não percebendo que meu aparelho motor já está funcionando mal; tomo Andressa pela mão.

-- Vem comigo. Vamos morrer juntos.

Trago Andressa pela mão para dentro do bar. As cores já estão borradas e não reparo nos objetos dispostos pelo espaço. Sei que posso pegar mais bebida nesse longo balcão. O som está vindo dali, deve ser onde fica a pista. Há um mundo de gente. A luz é pouca. Andressa segura minha mão forte. Na pista, balançamos, e balançamos, e balançamos, fazendo o mundo balançar, paredes, mesas, tudo girando, o torpor da mente e o torpor do corpo, estou sozinho no escuro me movendo sem parar -- tudo silencia, minha mente já não analisa nada, e já não há mais vida para ter vontade de algo.

Acordo subitamente, totalmente nu, com um pouco de dor de cabeça e um corte longo e superficial na mão esquerda. Não sei onde estou.

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