Trance
O homem sentado no banquinho de costas para o bar procurava sua jovem acompanhante na pista de dança. O barman já não sorria mais quando lhe pedia uma nova dose de uísque -- provavelmente já dava sinais de embriaguez. Como saberia? Por que se importar? Ele é ele, e pronto, tanto de um jeito como do outro. Além disso, está pagando.
Ele está ali descansando. Mais cedo esteve na pista de dança com ela balançando como um louco. Ele gosta de girar ouvindo esta porcaria, ou parar para observá-la a pequena distância derramando sensualidade sobre ele. A música, a pista, as cores estroboscópicas, oferecem uma embriaguez toda especial -- de um tipo que ele não agüenta por muito tempo. Rapidamente os animados rapazes e as sensuais moças perdem o glamour e os movimentos frenéticos excitados, enérgicos, ressurgem como desesperados, angustiados, artificiais, refletidos em olhos marcados pela influência das drogas. Sua acompanhante se transformava então em uma dançarina profissional com seus gestos codificados cumprindo o ritual do desejo. Nesse estado de opressão realista o corpo do homem perde velocidade e, antes que a situação fique mais constrangedora para sua parceira, dá sinal de que quer falar com ela segurando gentilmente seu rosto contra o seu e falando ao pé do ouvido.
-- Estou entediado com essa música repetitiva dos infernos, vou ali no bar.
Ela ouve Vou ali no bar, balança a cabeça em consentimento, e prossegue incansável.
Agora, sentado de costas para o balcão, a procurava na pista de dança. Ela, no fim das contas, o encontrou, e acenou com a mão; finalmente ele pôde parar de se lembrar para admirar o presente em forma de uma bela mulher.
Ela usa uma provocante minissaia, uma blusinha preta com firulas que brilham quando bate a pouca luz do ambiente, e sapatos de salto. Com um suspiro cansado ele pensa se algum dia ela conseguirá evitar o hábito da profissão e acatar seu pedido de se vestir casualmente. Sua mente luta entre o cansaço ante essa forma estabelecida, essa dureza dos costumes, essa divisão pré-determinada entre as pessoas desse e daquele tipo no espaço geográfico, e o fascínio diante daquela forma entre as outras, a sensação calorosa de sua companhia contra a distância com as outras, desconhecidas, a ânsia que se forma lentamente sob a pele que deseja se comprimir contra outra.
Enquanto ela dança sua saia esvoaça exibindo suas formas de tal modo que uma libido normal só agüentaria sob pesada influência, e de súbito certos por quês espalhados por aquele ambiente se resolvem no devaneio do homem, que se desenvolve nele sem que o perceba enquanto admirava que ela dançasse tão sóbria de modo tão profundo e se movia com extrema destreza entre os homens e as mulheres que a cercavam enquanto se punha sempre visível para ele e às vezes o mirava nos olhos fazendo perguntas impossíveis de expressas em palavras -- ao menos, naquele estado.
-- Uma dose, por favor. -- disse, estendendo ao barman a ficha de consumo.
Este o atendeu com a mesma cara feia de antes. Talvez a cara dele fosse assim, simplemente -- feia.
Voltou a observar a pista e acrescentar à sua embriaguez, onde já moravam trance e uísque, os movimentos daquela forma de mulher que ele ainda reconhecia entre as outras, pensando no movimento, se lembrando de um ballet no Teatro Municipal, ele senta perto de sua prima, ou será sua irmã, e passa-se um tempo de voltas e saltos e ele percebe que pela primeira vez aquele espetáculo muscular lhe transmite uma informação além da mera admiração pela dificuldade, uma insinuação, uma expressão complexa, uma história contada em silêncio apenas por corpos em movimento, que o toca profundamente -- subitamente Sabrina surge vindo pela pista acompanhada de uma forma de mulher. O homem se prepara para usar a voz.
-- André, André! -- já chega de vindo de longe uma voz conhecida, com braços esticados e sorriso por toda parte. -- Quero te apresentar a minha amiga.
A amiga também usa uma saia, mais comprida, e uma blusa azul discreta, e um tênis aparentemente improvisado.
-- Esta é a Cíntia. -- diz Sabrina.
-- Muito prazer, senhorita. -- Se levanta para beijá-la no rosto.
-- Olá, muito prazer. -- diz Cíntia, sem decidir entre estar descontraída ou constrangida.
Com uma gargalhada divertida pela confusão da amiga Sabrina passa a mão por seu ombro e confidencia algo o mais baixo que pode, e enquanto transmitia sua elaborada opinião sobre seu companheiro, qualidades diversas que em seu íntimo se reuniam em apenas uma característica, um desinteresse profundo pelas estruturas de outras pessoas aliado a uma quase total falta de estruturas próprias, que para ela eram um achado, ele pensava em uma mulher de longos cabelos negros e um vestido creme, ou marrom claro, ou algo por aí, que senta sob a sombra de um carvalho no topo de uma colinha verdejante -- palavra esta que deveria significar muita grama e provavelmente incômodo para quem senta sobre ela, não se pode imaginar jardineiros aparando a grama de todas as colinas verdejantes -- e ele usava de toda uma técnica condicionada para oferecer atenção a Sabrina enquanto ela lhe contava com extremo sarcasmo sobre os planos da colega de trabalhar apenas para pagar os estudos em uma universidade particular cujo nome ele não captava enquanto tenta em pensamento o quanto pode desdenhar da imagem cinematográfica fabricada sobre as colinas verdejantes e com ela todas as formas e poses que se pretendem obter um valor imaginário e falha frente à sensação agradável de uma colina verdejante onde se senta uma moça tão bonita sob uma agradável sombra e um céu da tarde, e enquanto balançava a cabeça em uma cumplicidade fingida e ouvia sobre as aspirações de Cíntia a torre das suas opiniões sobre as estruturas desmorona em uma quase condescendência, quase camaradagem, com as moças e seus charmes, olhares indicativos, passeios de pura exibição, e rapazes com suas aproximações agressivas, ou cômicas, ou idiotas de tão alcoolizadas, e todos em grupos ora oprimindo ou sendo oprimidos ora se juntando anonimamente à atividade comum, entre desejos e angústias que se dissolvem em um simples imperativo que é a vida. Seu cérebro quase derrete por completo nesse pensamento quando então percebe que o corpo que lhe está atrelado atualmente está conversando, animado, com as mulheres de quem acaba de se lembrar.
-- ..tropeçando escada abaixo, olha isso, logo depois de dizer Ei, companheiro, eu te seguro! e caio bem em cima dela -- está em pé, fazendo todo um teatro -- e quando percebo o que fiz, digo: perdão, achei que fosse uma almofada! -- os braços vão à cabeça e a careta de criança arteira completam o show, e as mulheres riem ridiculamente.
-- Você é muito esquisito! -- diz Cíntia, mordendo os lábios.
Com as últimas forças do seu aparato da razão o homem faz uma conta mental em reais. Satisfeito com o resultado, ele passa os braços pelas cinturas de suas companheiras, aperta com gosto suas bundas ganhando ais e uis e faces de apenas meia reprovação e completa.
-- Vamos, mulheres, hoje é o dia do prazer.
E as leva para a pista de dança, iniciando ou finalizando o processo fatal, assinando o contrato cujos termos veio discutir, realizando o comércio de homes e mulheres sem remorso ou culpa pelo simultâneo desejo e desinteresse, glamour e grosseria, pois a fantasia do amor, do pouco que lhe restou após meia vida de erros, foi finalmente cremado e jogado em cinzas ao mar do uísque ao som da música eletrônica em um funeral atendido pela irmandade nem um pouco secreta dos que vivem como podem em meio às satisfações e as necessidades, fingindo ter importância aquilo que é mera aparência, tornando totalmente aparência aquilo que é no fundo valor, saudando aquelas cinzas arrastadas pelas ondas que deixam para trás um corpo a ser preenchido por sucessivos instantes de paixão e fúria intercalados por eternidades do mais puro tédio.

0 comentários:
Postar um comentário