Segunda-feira, Outubro 16, 2006

Artes Marciais

Neste post na comunidade Aikidô Brasil um sujeito argumenta que esta arte marcial não serve para combate. Esta afirmação em si é interessante o suficiente; além dela alguns comentários que a seguiram também me chamaram a atenção.

Curiosamente, neste fim de semana eu tive finalmente a oportunidade de exercitar uma troca inter-disciplinar -- como vocês sabem eu sou praticante de um estilo de kung fu chamado Ving Tsun.

"Tanto pela natureza dos movimentos (a maioria circulares) e das defesas realizadas, me pareceu ser o Aikidô completamente deficiente contra ataques rápidos e simultâneos (chutes, socos, joelhadas e cotoveladas combinadas); mas principalmente pela ausência de combate."

A minha primeiríssima impressão sobre o Aikidô era similar. Ela era conseqüência da única visão sobre esta arte marcial que eu havia tido: uma série de exercícios em que o oponente atacava com um movimento com a mão em forma de faca descendo de cima para baixo na cabeça do praticante; este, então, se defendendo com uma angulação do corpo para qualquer lado aproveitando o punho exposto para uma torção.

Meu problema com esta visão é o simples fato de que nenhum agressor experiente e/ou furioso atacará nesta forma tão desconcertante -- e portanto o exercício parece a princípio inválido. Descobri o motivo para este início tão curioso neste fim de semana, mas uma coisa de cada vez.

O Ving Tsun é uma arte marcial conhecida mundo afora pela sua eficiência em combate real. O estilo preza movimento curtos, econômicos, e direto ao ponto; e preza um controle continuado da situação de modo a proporcionar um, dois, três, quatro movimentos sem parar. Mas se o autor do artigo acima tivesse tido do Ving Tsun a mesma experiência do Aikidô que eu tive quando formei a ultrapassada opinião acima ele teria concluído que o Aikidô é muitíssimo mais eficiente em combate que o Ving Tsun.

O motivo para isso é que o praticante de Ving Tsun demora todo um primeiro nível (dentre seis que compreendem todo o sistema) sem dar um único passo. Todos os exercícios no nível siu nim tao são realizados sem se mover; além disso, apenas no último exercício deste nível os dois braços são utilizados ao mesmo tempo; o resto do nível inteiro exercita apenas um só.

Isto é claramente ridículo -- pois foi totalmente removido do seu contexto maior. Como uma arte tão bem reputada em combate pode ter um início tão simplório? O início é simplório porque ele é apenas o início. Isso pede, porém, uma digressão.

"o aikido e tao eficiente quanto o jiujitsu ou o muay thay...
depende do praticante e nao da arte marcial ser eficiente..."

Freqüentemente discussões sobre sistemas como sistemas de artes marciais sofrem esta tentativa de finalização feliz; eu discordo.

É, naturalmente, difícil medir a eficiência de um arte marcial, já que uma arte marcial não é um processo mensurável, mas uma ferramenta utilizável. Porém, não é impossível medir a eficiência de uma ferramenta -- é, somente, muito difícil.

A minha proposição teórica é simples: uma arte marcial é mais eficiente que outra quando ela é capaz de produzir um Mestre em menos tempo que a outra.

Esta proposição teórica é de utilidade dúbia: o que determina um Mestre, o que se quer dizer por "capaz"? Porém, se esta proposição faz ao menos sentido para você, ela insinuará a distinção que eu faço entre coleção de técnicas de defesa pessoal e sistema de arte marcial.

(Naturalmente estas idéias não são todas de minha autoria e a influência do meu sifu e meus sihing é decisiva.)

Para mim, a diferença entre uma arte marcial e defesa pessoal é o fato de uma arte marcial ser um sistema de desenvolvimento da expressividade corporal baseado em uma série de princípios norteadores a partir dos quais o sistema surge. Analogamente, um sistema filosófico é um entendimento de todas as coisas baseado em um princípio racional fundamental -- como todo o sistema cartesiano que se apóia na proposição cogito, ergo sum em contraposição a um manual de regras do bom comportamento.

A relevância disto é que uma coleção finita de técnicas de combate não tem como compreender toda situação de combate que venha a surgir; uma coleção infinita de técnicas de combate não tem como ser aprendida em sua totalidade; mas a maestria em um sistema de arte marcial tem a chance de se adaptar a qualquer situação.

Por que o corpo humano é um. Dois braços. Duas pernas. Em uma determinada simetria. Um mestre em artes marciais para mim é uma pessoa que tem completa consciência do seu corpo de modo a ser capaz de se adaptar a qualquer situação, aproveitar qualquer favorecimento, se ajustar a qualquer defavorecimento.

Coleções de técnicas de combate não tem a oportunidade de construir um Mestre; um sistema de arte marcial têm.


"Mas pelo menos de onde eu venho ouço sempre "Se alguém começa uma agressão já sai perdendo porque ele quebrou a harmonia""

Eu não acredito em nada disso -- e não acredito que o Aikidô tenha sido construído acreditando nisso.

Um sistema de arte marcial pode ser mais que apenas um meio de sobreviver a uma pancadaria. Mas um sistema de arte marcial é mais que apenas isso -- é inclusive isso. Se ele não é capaz de produzir a solução para estes dilemas, ele não pode ser completo -- então o que resta? Um conjunto de regras filosóficas ou sociais? Artes marciais são marciais -- e é na realidade do corpo, a realidade mais básica das realidades humanas, que ela constrói o seu valor fundamental.

Nem sempre quem começa uma agressão já sai perdendo. Eu convido qualquer praticante de Aikidô que acredite nisso de forma tão simples a se exercitar com um praticante de uma arte "de contato", como se diz. Eu mesmo possuo um entendimento de onde esta frase é verdadeira -- mas o contexto da discussão não favorece esta verdade.

Existem pessoas para quem golpear através de um espaço aberto é a mais pura noção de harmonia -- encher onde estava vazio.

A acusação do autor do tópico é simples: o Aikidô não presta pra combate porque o seu treino é ingênuo. Mas a própria acusação é ingênua. O que é o treino de combate "realista"?

A experiência de um praticante de Ving Tsun em combate é curiosamente frágil. No segundo nível ele começa a andar e a praticar o chi sao, um exercício em que os dois praticantes tocam os braços e buscam então atingir o tórax do outro -- o que naturalmente requer desvencilhar-se dos braços do oponente.

Este processo prossegue no próximo nível quando, no seu final, o praticante levanta uma perna num ensaio de chute pela primeira vez. Apenas no quarto nível algo próximo do combate -- com socos e chutes -- surge. Como este exercício totalmente simbólico pode servir para alguma coisa realista, contundente?

Ele serve porque você, ao exercitar estas praticas tão bem construídas, certas habilidades subjacentes penetram no seu sangue, no seu hábito, nas suas articulações, e na sua mente enquanto agente que aborda o mundo.

Isto é verdade porque estes exercícios não existem por si mesmos, mas como alavancas para levar o praticante à maestria dos princípios fundamentais do estilo -- princípios que existem para nortear a vida de uma pessoa na busca da sua expressão completa.

O que isso tudo tem a ver com combate?

"Aikido é eficiente em Vale tudo?
Não, o combate do Aikido é mais voltado para a estratégia e controle da situação. Um ringue é um ambiente controlado para duas pessoas dispostas a se espancar!"

Recentemente eu ouvi a seguinte história. Estava um sujeito e sua companheira em um restaurante. Ele é então abordado agressivamente por uma pessoa que se apresenta como um famoso lutador de vale tudo em tom de intimidação (afinal, vale tudo é vale tudo). Ele responde dizendo quem ele é como se nada tivesse acontecido, e a sua acompanhante treme de medo pelo que fatalmente pode acontecer.

É isso sábio? Talvez não, porque nós sabemos o que é um lutador de vale tudo e a diferença entre uma pessoa como essa e uma pessoa comum.

Porém, o sujeito, imediatamente após perceber a situação, segurou uma garrafa de vidro e a escondeu empunhada debaixo da mesa.

Quando nós falamos de combate, estamos falando de diversas situações diferentes com uma característica similar: o perigo físico. No início de O Tigre e o Dragão, a figura mascarada e a personagem principal lutam porque uma quer escapar e a outra quer capturar. Em um ringue de vale tudo ambos lutam para ganhar mais pontos ou obter um knock out. Em uma briga de bar as pessoas lutam para machucar a quem elas odeiam. Em uma guerra luta-se para controlar áreas geográficas.

Uma coleção de técnicas de desarme e torções de braço potencialmente produz um excelente soldado de forças especiais; mas o que produz um general? Opostamente, qual é o valor de um general que não compreende a natureza do combate corpo a corpo?

Qual é o propósito mais útil para se perseguir no início? É realmente óbvio que o treino com um golpeamento tão tosco como o do início do treino de Aikidô é ingênuo? Por que ele inicia assim? Qual é a conseqüência no âmago do praticante a propagação final desse processo? É preciso acompanhar toda uma trajetória nesse sistema para aprender.

Eu tive um vislumbre bem mais interessante desse processo recentemente e perdi completamente a impressão inicial que tive -- e que já havia diminuído seriamente após outras experiências. Era realmente a minha expectativa que isso acontecesse.

"Não estou desmerecendo aqui a questão do esporte Aikidô: não tenho a menor dúvida de seus benefícios físicos, emocionais e mentais."

Esta frase, que é um insulto velado, trás em resumo o engano do autor do tópico e o ponto fundamental do meu argumento.

Um sistema de arte marcial como o Aikidô trás benefícios físicos, emocionais e mentais, de uma forma evidentemente arquitetada para produzir, em conjunto, um ser humano de adaptabilidade fantástica.

Testar a capacidade de uma arte marcial tão suave como esta em produzir um combatente eficiente é provavelmente uma tarefa difícil -- porque convencer uma dessas pessoas a lutar com você será difícil.

Mas isto sim é um erro ingênuo, acreditar que uma pessoa que se recusa a lutar é incapaz de lutar -- e uma agressão nesta situação nos favorece bastante a concordar com o aforismo acima sobre harmonia.

Desejaria que praticantes de Aikidô não se enganem com esta aparente verdade -- que não serão um dia combatentes e que:

"O aikido não se treina para isso e sim para outros fins"

Se você é um praticante de Aikidô, procure este fim entre todos os outros fins, e você o encontrará. E lembre-se que combater é algo que você faz com o propósito de defender aquilo que considera importante. Assim sendo, é natural que uma arte como o Aikidô sirva para combater.

1 comentários:

Anônimo disse...

http://www.natgeo.tv/artesmarciais/