Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Alfa et Omega, parte I

Foi uma visão de toda essa importante história que me escorreu para fora da cabeça naquele extático momento.

Acordei no banco de trás do ônibus e, percebendo lentamento, entendi que estava em Copacabana. Rodeado por aquelas formas de pessoas, em um caixote em movimento, me senti mal por ter perdido a oportunidade correta.

Saltei à beira da rua que desembocava no túnel, decidido a percorrer a pé o resto do caminho como que por punição. Me identificava, porém, com aquele bairro; todas as pessoas e lugares pareciam os mesmos que os de uma quadra atrás; não me despertavam nada. Subi a rua entre mulheres de pouca roupa e homens barrigudos sem camisa; alcancei aquela pracinha de topologia curiosa e penetrei no túnel. O zumbido contínuo e homogênego dos carros passantes era inebriante, e foi com grande desagrado que recebi uma interrupção.

-- ôôô, sai da frente! -- gritou alguém na outra margem, à minha esquerda.

Por sobre os carros que passavam percebi uma figura que corria sem parar entre os mendigos que moravam na outra passagem; uma pessoa que não parecia dar a mínima para aqueles que atropelava; estremeci e pensei que deveria ser uma pessoa importante, um líder local, chefe do morro. Voltando finalmente os olhos para o meu caminho, cruzando assim a pista lá embaixo, foi quando eu vi, no canto da pista, próximo a mim; vi um bloco de papel quadriculado, sabia bem para que servia aquilo, estava todo rabiscado, e no centro uma figura...

Tomei-o para mim, não me importei como. Uma barulheira, movimentos rápidos, por fim estava nas minhas mãos.

Atravessando o túnel, com aquele Pergaminho em mãos, dobrei à direita e acompanhei a longa parede do cemitério. O comprido e monótono trajeto ao lado dos mortos não me despertava nada. Passando pelo portão principal chutei um largo prato de barro, cheio até a boca, que me pareceu particularmente favorável.

Por fim alcancei a entrada da vila onde morava. Do outro lado da rua, sentado sobre as plantas em um canteiro, meditava o Eremita; não interrompi sua ponderação sobre Mistérios Insondáveis e entrei. No pátio estavam muitos Cotocos, correndo atrás de uma bola. Quando entrei, pararam; um deles pegou do chão a bola; um outro levanto o braço e sussurrou Não!; peguei um pedregulho que estava por perto. O Cotoco, com a bola debaixo do braço, ensaiou um passo para trás; quis atirar nele o pedregulho, e meu corpo quase obedeceu; houve um estremecimento, e um hiato; quando já estava me aborrecendo a bola foi solta no chão; quis atirar o pedregulho assim mesmo, quando me lembrei do Pergaminho que segurava com a outra mão. Segurei-o firme com as duas mãos, esquecendo o que levava na outra; passei por entre os Cotocos com seus rostos insignificantes, ouvindo suspiros diferentes, até chegar na última casa da esquerda, onde entrei.

-- Estou em casa, mamãe.

O quarto maior estava com a porta fechada. Me dirigi aos fundos e lá fiquei estudando o Pergaminho. Quando não havia jeito de decifrá-lo mais, saí, e a folhinha da cozinha já não dizia mais Agosto; rumei ao encontro do Eremita.

Saindo de casa me deparei com um Cotoco parado no pátio, olhando para dentro de uma das casas. Meu corpo pareceu endurecido, quis me esticar. Andei pesadamente em direção a ele; sua figura tremeu, se voltou para mim, não se moveu; uma mulher surgia pela porta quando levantei minha mão e pensei naquele estranho desenho perturbadoramente cilíndrico ou esférico ou cônico que figurava repetidamente nas páginas do Pergaminho rodeado pelo texto que eu havia decifrado enquanto acertei a cara do Cotoco com a mão pesada. Ponderei a estranha semelhança entre o Artefato e a chaminé metálica da casa à minha frente enquanto uma mulher gritava e ajoelhada no chão e o Cotoco caído olhava uma mão sem manchas de sangue.

Saindo da vila não encontrei o Eremita metidando no canteiro. Segui rua abaixo junto aos carros até dobrar à esquerda em direção à praça. Lá os pivetes que riam e apontavam nojentamente a solene figura do Eremita fugiram com a minha chegada.

O Eremita estava como sempre usando seu chapéu de carcaça de bandolim, cortado pelo comprimento, sem farpas aparentes, e ainda com as cordas, e com sua manopla rosa shocking de brilhantes na mão direita e com sue short de combate cerimonial. Uma nova corda saltava para fora do seu chapéu, sinal de que em breve o mestre atingiria o fim do seu exotérico trabalho; senti ansiedade por obter logo seu conselho. Sentei-me a seus pés.

-- ...louca do Reveillon, vinte porcento... -- repetia ele.
-- Mestre -- interrompi.
-- Promoção... -- continuou impassível, em profundo transe místico.

Esperei. Muitas formas iam e vinham por nós; nenhum Cotoco ou pivete. O vento na pracinha atingia minha pele e, em silêncio, o percebia como um constante espremer.

-- Isso, pra ele, é uma refeição! -- disse espantada uma forma gorda, minha única distração até a luz do mundo começar a diminuir, quando finalmente o Mestre chamou minha atenção.

-- Amigo, uma Bavaria -- disse.
-- Mestre, tenho uma dificuldade. -- respondi.

Olhou para mim franzindo todo o rosto em poderosa inquirição. Estendi para ele o Pergaminho, que agora trazia sempre comigo. Examinou as folhas uma por uma com muita calma. Então elevou os olhos e apontou para o céu.

-- É a número um! -- exclamou; compreendi que se referia ao Artefato, possuindo muitos novos conhecimentos desde minha última Missão.
-- Não compreendo, Mestre -- continuei, humilde.
-- ôôô, Kaiser Boch -- vibrou estranhamente ele, balançando os braços em movimentos aleatórios por todos os lados.

Não compreendi, mas isso não me surpreendeu. Os modos do Eremita eram estranhos e místicos. Ele se levantou e girou e girou balançando os braços como se dispensasse sua bensse por toda a praça, ainda na prece da Kaiser Boch -- nova para mim, na época.

Ah! eu não compreendi; se houvesse compreendido...

-- Mas Mestre!.. -- protestei, ainda sentado no chão, frustrado por minhas limitações.

Parou, então, de girar, e olhando em minha direção, por cima de mim talvez, com um olhar grave, me revelou finalmente.

-- Bem, amigos da Rede Globo, é mais um clássico no Maracanã -- então correu para onde eu não podia olhar, e eu entendi.

Me levantei, determinado. Passei por uma confusão de pivetes tentando recuperar uma bola, dessas de crianças, que estava sob poder do Eremita, que a chutava e corria atrás dela com infinita energia. No caminho para casa, dobrando a esquina, percebi o toldo amarelo do bar que ali ficava, e um cheiro inusitado de moela; não dei atenção ao fato.

No dia seguinte estava de volta ao CEFET.

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