Domingo, Dezembro 10, 2006

Zangão com Defeito

[2006-12-12: revisão tipográfica.]

Acordei cansado em casa, em posição de múmia sobre a cama, abraçado ao despertador, que gritava energicamente Acorde, seu filho da puta! já está atrasado pra sair. Como tudo no Circo Voador demora a começar levantei lentamente e resolvi minha vida. Muitas aventuras depois cheguei à Lapa, onde me encontrei com Bolão e Reco-Reco para tomar uma lata de cerveja e então começar o show da banda de abertura.

Lá para as tantas da noite entrou no palco Baia e banda. O som é muito bom e logo eu estou balançando o esqueleto. Ainda com a cabeça cansada, aquele embalo todo me pôs meio zonzo. Após uma das músicas mais animadas me peguei pensando em um zangão meio diferente.

Acordei de um estupor e estão todos alvoroçados. A princesa está prestes a partir e deixar no caminho aquele rastro invisível, com o qual não há argumentação, puro imperativo da natureza. Mas por algum motivo eu não me movo. É o propósito de um zangão desejar e perseguir e tomar a jovem princesa de seus companheiros zangões para torná-la rainha de um novo ciclo.

Enquanto a maratona parte da colméia em direção ao horizonte eu desço para o gramado e pouso em um girassol. Me acomodo vazio de intenções. Em breve um zangão cumprirá o seu papel e o tempo de vida de todos nós se aproximará do fim. Uma brisa mais forte balança a flor sobre a qual estou e me ponho a pensar em qualquer pensamento que ocorra a abelhas quando não estão fazendo nada.

Acordo configurado em uma aberração funcional, lençóis e colcha embolados embaixo de mim, como se eu os estivesse cobrindo do frio, ao invés do contrário. Logo recebo um telefonema confirmatório do meu próximo compromisso. Leio correio e obtenho notícias sobre uma violenta guerra de gangues da noite anterior que deixou um amigo com alguns hematomas. Saio para almoçar.

Há pouca gente neste aniversário onde vim. Após uma meia-dúzia de piadas o aniversariante nota a semelhança entre o meu estilo de prosa e o da moça sentada ao seu lado, ela concorda e ambos riem, num crescendo de comparações que me põe rindo de sem graça, terminado com a observação da própria moça, Ora, deve ser minha alma gêmea! Meu riso se torna amarelo e eu ponho um dedo no ouvido, parando de escutar a conversa alheia.

Me desculpe, mas eu estou evitando a todo custo topar com minha alma gêmea; se eu soubesse que você estaria aqui, não teria vindo.

Me lembrei a cada passada de uma das aberrações servidas naquele rodízio das trevas da moça das Ciências Sociais, do Zangão, daquela lourinha que já quase me escapa totalmente da memória, e de ... de quem ainda não se fez necessário esquecer.

Quando me dei conta estava quase dormindo sobre o teclado e na minha frente vi um artigo enciclopédico sobre as abelhas. Algumas abelhas, curiosamente, não possuem estrutura social própria, e vagam até encontrar uma colméia pré-existente, onde depositam seus ovos, e chegam até mesmo a substituir violentamente a rainha.

Passei o resto do dia ponderando como esse supremo ato de conquista se exibe tão naturalmente em um animal tão simples que não o possa levar a cabo por outro desejo que o de cumprir sua própria natureza de sobreviver e fazer sobreviver sua espécie.

Concluídos todos esses pensamentos, percebi que pensava em chamar ... para sair. Como ... está fora da cidade, segui sozinho para algum lugar movimentado, onde pudesse ouvir um zum-zum-zum.

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