Tereza, Tomas, e o cachorro
[P] "Do caos confuso dessa idéia germina no espírito de Tereza uma idéia blasfematória: o amor que a liga a Karênin [o cachorro] é melhor que o amor entre ela e Tomas."
[P] "Melhor, não maior. Tereza não quer acusar ninguém, nem a si própria, nem a Tomas, não quer afirmar que poderia se amar _mais_."
[G] Você que escreveu?
[P] "Parece-lhe apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é _a priori_ de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor das versões) entre um homem e um cachorro -- essa coisa estranha da história do homem, que o Criador certamente não previu."
[P] Não, Milan Kundera.
[P] "É um amor desinteressado: Tereza não pretende nada de Karênin. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos:"
[P] "Será que ele me ama? Será que gosta mais de mim que eu dele? Terá gostado de alguém mais do que de mim?"
[G] É claro que ela não se pergunta isso porque, bem, o cachorro está lá, sabe. E vai estar lá.
[G] O risco dele trocá-la por outra é muito pequeno.
[P] "Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião?"
[P] "Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua simples presença."
[P] São dois parágrafos do Insustentável Leveza.
[G] Excelente.
[G] A filosofia pode ser discutível, mas o cara escreve muito bem.
[P] A narrativa do Kundera é como uma série de reflexões que se desenvolvem na forma de personagens e as situações que vivem.
[P] Ele explicita isso, e às vezes diz: Ora, suponha: um homem está com sua mulher...
[G] Se liga, eu quero ler isso.
[G] Tô indo almoçar, abração e boa viagem, véio.
[P] Até.
