Sábado, Setembro 30, 2006

Quinta Sinfonia de Mahler

Fomos eu e mamãe ao Teatro Municipal hoje para ouvir a quinta de Mahler.
O regente da orquestra era um sujeito extremamente simpático que nos falou um pouco sobre ela.
Achei a sinfonia apaixonante.
As sinfonias de Mahler são mesmo muito ricas.

Vote Lula!

E apóie a eutanásia do PSDBFL!

Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Time Warp

Não sei por quê, mas hoje está com uma super cara de sexta-feira.

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Noticiário

A família me fez o favor de tirar minhas caixas de som da tomada pra ligar o hub-roteador-access-point em seu lugar.

Encontrei Dudu na Internet. Dudu, cara. Vou adicionar ele no Messenger.

Palestra de Reiki me convence a prestar atenção.

Onde estão os blues do Rio de Janeiro?

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Tecno-família

Hoje meu primo Bruno trouxe a parafernália: um hub-router-access-point D-Link pro meu quarto, uma antena USB e uma webcam pro quarto da Marcia.

A tecno-família se encontra e conversa cada um isolado no seu quarto: falamos por quase uma hora pelo Skype.

Decidi escrever pra minha irmã um programa de gerência de receitas culinárias. Eis uma foto da nossa primeira reunião formal de levantamento de requisitos.

É evidente pela clara dedicação de todos os envolvidos que este projeto será um sucesso.

Baderna Socialista

A pouco mais de um ano atrás eu mantive por algum tempo o hábito de ler tudo que podia do Arnaldo Jabor. Compreendi, naquela época, que para dar o próximo passo na expansão da minha capacidade intelectual era necessário não só ler os grandes autores que era capaz de reconhecer e ler rapidamente, mas também sobreviver incólume ao que há de pior e mais confuso, e não apenas sobreviver, mas compreender, me apiedar, e por fim formular uma refutação completa -- e então ir fazer alguma outra coisa.

Confesso que esse projeto não foi completado até o final, devido à minha incapacidade de sobreviver ao total caos.

Pois bem. Estou novamente em campanha, desta vez com um novo foco: o upa-guru Olavo de Carvalho, maior intelectual brasileiro, defensor da Tradição e nêmesis da conspiração comunista que se apossou do governo brasileiro, encabeçada pelo FORO DE SÃO PAULO (cujo site totalmente secreto com certeza não pode ser encontrado no Google).

O site oficial do upa-guru contém inúmeros ensaios exibindo as verdades arqui-evidentes que os esquerdistas-gayzistas velam incançavelmente do grande público; e o site Mídia sem Máscara, cujo editor é o próprio Mestre, trás ensaios de seus filhotes e derivados.

No Orkut vários estudiosos da obra do Mestre, eu incluzive, se reúnem freqüentemente na comunidade oficial Olavo de Carvalho nos Odeia. Lá, o tenso debate sobre as idéias revolucionárias do upa-upa encontra toda sorte de opiniões, inclusive com a periódica visita dos membros da comunidade para-oficial Olavo de Carvalho.

Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Afogamento I

Eu afogo minha vontade de morrer em um mar de álcool. Schopenhauer nos ensinou que o que é noumena é a vontade de viver, através da qual se pode conhecer o que de outro modo é inconhecível. Eu poderia ensinar que o que é phenomena é a vontade de morrer, através da qual as coisas se consomem umas nas outras, deixando de existir para dar lugar a uma outra. Minha mente trabalha furiosa à despeito da minha vontade, reflexo da minha vontade de viver; eu afogo o falatório mental em um mar de álcool, reflexo da minha vontade de morrer.

Os dias de trabalho, chamados paradoxalmente de "úteis", passam lentamente sem qualquer relevância, tentando ocupar o colosso da minha mente com tarefas medíocres, sem sucesso. O tempo livre é todo desperdiçado na fútil análise do próprio ócio e do que fazer com ele. Acabam os cinco dias compactados em uma lembraça curtíssima idêntica à tantas outras das semanas anteriores. Então chega a sexta-feira.

Chego em casa do trabalho como se o último domingo tivesse acabado de terminar. Ponho uma sinfonia qualquer para tocar, algo do século 20, porque estou cansado do kitsch do passado, da primordialidade, dos bons tempos, dos clássicos -- da certeza. Enquanto tomo um longo banho penso no fogo. Sento no chão do box, com a porta do banheiro aberta, com água escorrendo pelo corpo e música pelos ouvidos, três sentidos em seis cheios de simples sensações -- penso no fogo, na combustão, no consumo, no cessar, e na ação imediata, imponderada, impulsiva, furiosa -- que transmuta o mundo. Mas essas coisas não são de mim. Penso nelas como um viajante pensa em um destino distante.

De mim é um abismo longo, um deserto vasto, vazio, em mim a vontade de morrer se concretiza. Esses pensamentos escorrem do primórdio do meu ser para fora como uma secreção viscosa da glândula que é a minha mente. Eventualmente me entedio com a parede branca de azulejos; ponho um tênis, calça cargo, camisa vermelha, e deixo novamente meu lar vazio e sem luz.

Desço pela minha rua até alcançar o cemitério; acompanho em silêncio completo a longa parede do cemitério contemplando o descanso eterno de mentes que não se perturbarão mais. Aqui está enterrada minha avó, me lembro claramente de chegar em casa ainda jovem e encontrar a empregada em pânico, subir apressadamente as escadas e encontrar minha avó no absoluto silêncio dos mortos, me lembro de verificar o fato checando pulso e coração, e finalmente sentir um imenso alívio por aquela pessoa que não vai mais experimentar qualquer sofrimento -- que não vai mais experimentar qualquer coisa.

O cemitério eventualmente chega ao fim no grande cruzamento que leva a Real Grandeza até o túnel velho; prossigo em direção ao Humaitá, passando na frente de boites alternativas onde os jovens vivem o kitsch do novo, do inovador, do nunca-feito-antes, do sofisticado -- o kitsch do avant-garde. Para eles eu pareço sombrio e sem cor, para mim eles se parecem borrados por fora e ocos por dentro. O kitsch do novo é uma ilusão de felicidade, de euforia, fabricada com cores berrantes e sons rápidos, uma felicidade que rapidamente se mostra desesperada como uma longa sede. Finalmente chego ao bar onde Andressa me espera.

Já na distância a vejo, sentada na varanda do lado de fora da casa, onde às sextas-feiras tocam bandas desconhecidas que levam qualquer tipo de som que se assemelhe de algum modo ao rock 'n roll. Ela toma uma caipirinha e balança a cabeça cantarolando a música. Só me vê quando já estou na frente dela.

-- André! -- diz, retornando de sua distração à realidade.
-- Oi, querida. Me desculpe pelo atraso.
-- Se você tivesse demora mais dez minutos, eu teria ido embora.

Diz isso com uma mão na cintura e a outra apontando acusadoramente, com uma careta no rosto. Andressa é uma pessoa muito plástica, e expressa com o corpo muito mais que com as palavras. Nos sentamos; na varanda deste bar as pessoas se sentam em banquinhos altos ao redor de mesas redonda toscas de madeira, uma tentativa de fazer um "saloon" do velho oeste americano.

Ela me conta longa história sobre seu marido, uma pessoa que admira mas não ama. Me faço passivo, sou um receptáculo de palavras e de chopp. Aqui se serve um chopp feito na serra que não se encontra em qualquer outro lugar da cidade, um chopp amargo como o desabafo de Andressa. Andressa me diz freqüentemente que eu sou um excelente ouvinte, mas eu não sou como o homem com quem viveu Sidharta no romance de Herman Hesse, que possuía a arte de ouvir com vivacidade; eu ouço como um vasto abismo ouve o som dos ventos que o penetram, eu sou um ralo por onde escorre qualquer quantidade de água da pia. Não me interesso pelo marido de Andressa, mal me interesso por Andressa; me interesso por Andressa por comparação, já que me interesso menos ainda por qualquer outra das inumeráveis coisas que hão no mundo. Me interesso pela cerveja, que entra com tanta facilidade quanto as palavras.

-- O que há com você hoje, amigo? Você parece estranho. -- diz Andressa.
-- Já passou da meia-noite?
-- Já, mas e daí?
-- Você não sabe que dia é hoje?
-- É algum dia especial?
-- Hoje é o Equinócio de Primavera.
-- O que é um Equinócio? -- diz, apoiando-se na mesa nos dois cotovelos, numa expressão exagerada de curiosidade.
-- Lembra-se do diagrama do sistema solar, da órbita da terra ao redor do Sol, que nós vemos na escola?
-- Sim, sim.
-- Então, essa órbita tem dois pontos onde a quantidade de luz que incide no hemisfério norte e no hemisfério sul são iguais.
-- Hu-hum. -- diz, com uma cara sincera de que não sabia a importância daquilo.
-- Nesses dias, o tempo de luz e o tempo de noite é exatamente igual. -- completo.
-- Sério? Exatamente igual? Nossa! -- diz, com um sorriso inocente.

O sorriso de Andressa é radiante, confesso a qualquer um que uma mulher não precisa mais que sorrir para me cativar. Quero estimular esse sorriso, portanto continuo falando sobre os Equinócios, sobre a importância mística do dia quando acontece a transição do calor máximo e do calor mínimo, as estações do frio e do calor, disto como símbolo de transcendência, de como isso é codificado nos mitos das várias culturas. Minha mente viaja pelas distâncias estimulada por esse assunto somado ao álcool que percorre as minhas veias.

Os mitos do Equinócio de Primavera são mitos de vida, quando o fogo, que aquece, retorna à natureza, e quando a terra é tornada fértil, mudando da cor preta do inverno para a cor verde dos gramados. Mas essas coisas não são de mim, e a insinuação da vida como uma chama que surge é ridícula diante da vastidão fria que é minha vontade de morrer. Ela cria um pulsar dentro de mim, uma ânsia, que clama pelo álcool, pelo torpor da mente, um progressivo estado de silêncio. Zonzo, os objetos diminuem em quantidade no espaço ao meu redor, que se resume a uma mesa com Andressa à minha frente.

Não me interesso pelo que está acontecendo, mesmo assim converso com Andressa sobre as amenidades que a apetecem. Converso sobre qualquer coisa que ela quiser, não me importa fazer isso ou outra coisa qualquer -- poderia mesmo ter ficado em casa deitado no chão enquanto corria sobre mim o vento frio vindo da varanda e a agressiva sinfonia que escolhi por acaso -- mas percebo que ainda assim vim para este bar encontrar esta mulher, e a percepção de mais esta insinuação do impulso para viver aumenta ainda mais o pulsar da morte. Por quê, realmente, vir até aqui? Por que não ficar em casa em repouso? Sair de onde você está para ir a outro lugar é mudar, mas qual é o propósito de mudar? Eu não quero alcançar nada, realmente, mas vivo sob o jugo da vontade de viver que é natural do meu corpo.

-- Eu poderia ter ficado em casa deitado no chão. Por quê eu vim até aqui, Andressa? Por quê não fiquei em casa?
-- Você veio me ver, ora, e veio beber cerveja.

Percebo que realmente queria vê-la, e que mesmo a vontade de afogar a vida na embriaguez da morte é, ainda assim, uma vontade. A estranha ironia me faz sorrir; sorrindo, faço ela sorrir; percebo também que quero vê-la sorrir, e de repente sinto menos frio. Me levanto, não percebendo que meu aparelho motor já está funcionando mal; tomo Andressa pela mão.

-- Vem comigo. Vamos morrer juntos.

Trago Andressa pela mão para dentro do bar. As cores já estão borradas e não reparo nos objetos dispostos pelo espaço. Sei que posso pegar mais bebida nesse longo balcão. O som está vindo dali, deve ser onde fica a pista. Há um mundo de gente. A luz é pouca. Andressa segura minha mão forte. Na pista, balançamos, e balançamos, e balançamos, fazendo o mundo balançar, paredes, mesas, tudo girando, o torpor da mente e o torpor do corpo, estou sozinho no escuro me movendo sem parar -- tudo silencia, minha mente já não analisa nada, e já não há mais vida para ter vontade de algo.

Acordo subitamente, totalmente nu, com um pouco de dor de cabeça e um corte longo e superficial na mão esquerda. Não sei onde estou.

Sábado, Setembro 23, 2006

Equinócio de Primavera

Hoje o Fogo chega na parada.
Fudeu!

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Civilization IV

Acabei de me dar conta, hoje na hora do almoço, que agora eu tenho um leitor de DVD e portanto posso comprar e instalar o Civilization IV.
\o/

Terça-feira, Setembro 19, 2006

Equinócio de Primavera

Como de praxe, estaremos no bar do Costa.
Dessa vez a mesa vai estar meio vazia; a nova geração estará em outro lugar.
Deu até uma dor nas juntas, agora...

Sexta-feira, Setembro 15, 2006

all your home are belong to classical music

Agora com esse hábito de descer ao play pra fazer exercício estou ouvindo com freqüência a rádio MEC. Uma coisa puxa a outra, a televisão já está se tornando uma persona non grata aqui em casa (quando Marcia não está por perto), e o Globo está com uma promoção de CDs... Conseqüência final: a casa está quase todo o dia preenchida por música clássica.

Agora mesmo estamos ouvindo Chopin. Vovó Maria, mamãe da mamãe, tocava ao piano. Mamãe ouve os concertos aos suspiros, e nos momentos mais excitantes fica de um lado para o outro pelo corredor, me perguntando Tá ouvindo, tá ouvindo? Sim, mãe, tô ouvindo.

Eu gosto muito dos concertos para piano do Chopin -- infelizmente não temos mais por aqui os Noturnos, que eu tenho certeza que tínhamos em uma edição especial de capa branquinha da Deustch Grammophone, regência do Claudio Abbado. (Acho que foi roubado no infame episódio ocorrido na casa de Macaé.)

Hoje em dia eu gosto mais de sinfonias -- sendo que a diferença pra mim está na maior homogeneidade de instrumentos, ao contrários desses concertos que são dominados por um instrumento só. Tenho ouvido com freqüência duas em particular: a Titan, de Mahler, e a Rhapsody in Blue de Gershwin.

Outro dia deu-se um debate sobre se Gershwin seria ou não seria "música clássica". Acredito que suas composições sejam sem dúvida descendentes legítimas do que é bem aceito como música clássica, mas entendo que um compositor de scores para Hollywood não seja facilmente visto como "compositor clássico".

Infelizmente perdi a sinfonia das mil vozes que o projeto Aquarius executou na praia de Copacabana.

(Quando não estou ouvindo nada disso, estou ouvindo Air. Air é muito bom. Estou esperando a oportunidade de usar como fuck music.)

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Tá quase, cambada!

Meebo Me

Acrescentei uma caixa de chat aí do lado.
Espero que seja útil.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Ginástica

Fui apresentado formalmente hoje à sala de ginástica do prédio.
Conteúdo: duas esteiras, duas bicicletas, muitos pesos do tipo pequeno (pra uma mão), esteiras acolchoadas (pra deitar no chão), uma balança eletrônica, parede com espelhos, televisão.
Em concerto com minha recente obsessão pelos chutes, resolvi exercitar na bicicleta. Achei um hábito perfeitamente continuável esse fingimento de andar de bicicleta ouvindo rádio.

Domingo, Setembro 10, 2006

Trance

O homem sentado no banquinho de costas para o bar procurava sua jovem acompanhante na pista de dança. O barman já não sorria mais quando lhe pedia uma nova dose de uísque -- provavelmente já dava sinais de embriaguez. Como saberia? Por que se importar? Ele é ele, e pronto, tanto de um jeito como do outro. Além disso, está pagando.

Ele está ali descansando. Mais cedo esteve na pista de dança com ela balançando como um louco. Ele gosta de girar ouvindo esta porcaria, ou parar para observá-la a pequena distância derramando sensualidade sobre ele. A música, a pista, as cores estroboscópicas, oferecem uma embriaguez toda especial -- de um tipo que ele não agüenta por muito tempo. Rapidamente os animados rapazes e as sensuais moças perdem o glamour e os movimentos frenéticos excitados, enérgicos, ressurgem como desesperados, angustiados, artificiais, refletidos em olhos marcados pela influência das drogas. Sua acompanhante se transformava então em uma dançarina profissional com seus gestos codificados cumprindo o ritual do desejo. Nesse estado de opressão realista o corpo do homem perde velocidade e, antes que a situação fique mais constrangedora para sua parceira, dá sinal de que quer falar com ela segurando gentilmente seu rosto contra o seu e falando ao pé do ouvido.

-- Estou entediado com essa música repetitiva dos infernos, vou ali no bar.

Ela ouve Vou ali no bar, balança a cabeça em consentimento, e prossegue incansável.

Agora, sentado de costas para o balcão, a procurava na pista de dança. Ela, no fim das contas, o encontrou, e acenou com a mão; finalmente ele pôde parar de se lembrar para admirar o presente em forma de uma bela mulher.

Ela usa uma provocante minissaia, uma blusinha preta com firulas que brilham quando bate a pouca luz do ambiente, e sapatos de salto. Com um suspiro cansado ele pensa se algum dia ela conseguirá evitar o hábito da profissão e acatar seu pedido de se vestir casualmente. Sua mente luta entre o cansaço ante essa forma estabelecida, essa dureza dos costumes, essa divisão pré-determinada entre as pessoas desse e daquele tipo no espaço geográfico, e o fascínio diante daquela forma entre as outras, a sensação calorosa de sua companhia contra a distância com as outras, desconhecidas, a ânsia que se forma lentamente sob a pele que deseja se comprimir contra outra.

Enquanto ela dança sua saia esvoaça exibindo suas formas de tal modo que uma libido normal só agüentaria sob pesada influência, e de súbito certos por quês espalhados por aquele ambiente se resolvem no devaneio do homem, que se desenvolve nele sem que o perceba enquanto admirava que ela dançasse tão sóbria de modo tão profundo e se movia com extrema destreza entre os homens e as mulheres que a cercavam enquanto se punha sempre visível para ele e às vezes o mirava nos olhos fazendo perguntas impossíveis de expressas em palavras -- ao menos, naquele estado.

-- Uma dose, por favor. -- disse, estendendo ao barman a ficha de consumo.

Este o atendeu com a mesma cara feia de antes. Talvez a cara dele fosse assim, simplemente -- feia.

Voltou a observar a pista e acrescentar à sua embriaguez, onde já moravam trance e uísque, os movimentos daquela forma de mulher que ele ainda reconhecia entre as outras, pensando no movimento, se lembrando de um ballet no Teatro Municipal, ele senta perto de sua prima, ou será sua irmã, e passa-se um tempo de voltas e saltos e ele percebe que pela primeira vez aquele espetáculo muscular lhe transmite uma informação além da mera admiração pela dificuldade, uma insinuação, uma expressão complexa, uma história contada em silêncio apenas por corpos em movimento, que o toca profundamente -- subitamente Sabrina surge vindo pela pista acompanhada de uma forma de mulher. O homem se prepara para usar a voz.

-- André, André! -- já chega de vindo de longe uma voz conhecida, com braços esticados e sorriso por toda parte. -- Quero te apresentar a minha amiga.

A amiga também usa uma saia, mais comprida, e uma blusa azul discreta, e um tênis aparentemente improvisado.

-- Esta é a Cíntia. -- diz Sabrina.
-- Muito prazer, senhorita. -- Se levanta para beijá-la no rosto.
-- Olá, muito prazer. -- diz Cíntia, sem decidir entre estar descontraída ou constrangida.

Com uma gargalhada divertida pela confusão da amiga Sabrina passa a mão por seu ombro e confidencia algo o mais baixo que pode, e enquanto transmitia sua elaborada opinião sobre seu companheiro, qualidades diversas que em seu íntimo se reuniam em apenas uma característica, um desinteresse profundo pelas estruturas de outras pessoas aliado a uma quase total falta de estruturas próprias, que para ela eram um achado, ele pensava em uma mulher de longos cabelos negros e um vestido creme, ou marrom claro, ou algo por aí, que senta sob a sombra de um carvalho no topo de uma colinha verdejante -- palavra esta que deveria significar muita grama e provavelmente incômodo para quem senta sobre ela, não se pode imaginar jardineiros aparando a grama de todas as colinas verdejantes -- e ele usava de toda uma técnica condicionada para oferecer atenção a Sabrina enquanto ela lhe contava com extremo sarcasmo sobre os planos da colega de trabalhar apenas para pagar os estudos em uma universidade particular cujo nome ele não captava enquanto tenta em pensamento o quanto pode desdenhar da imagem cinematográfica fabricada sobre as colinas verdejantes e com ela todas as formas e poses que se pretendem obter um valor imaginário e falha frente à sensação agradável de uma colina verdejante onde se senta uma moça tão bonita sob uma agradável sombra e um céu da tarde, e enquanto balançava a cabeça em uma cumplicidade fingida e ouvia sobre as aspirações de Cíntia a torre das suas opiniões sobre as estruturas desmorona em uma quase condescendência, quase camaradagem, com as moças e seus charmes, olhares indicativos, passeios de pura exibição, e rapazes com suas aproximações agressivas, ou cômicas, ou idiotas de tão alcoolizadas, e todos em grupos ora oprimindo ou sendo oprimidos ora se juntando anonimamente à atividade comum, entre desejos e angústias que se dissolvem em um simples imperativo que é a vida. Seu cérebro quase derrete por completo nesse pensamento quando então percebe que o corpo que lhe está atrelado atualmente está conversando, animado, com as mulheres de quem acaba de se lembrar.

-- ..tropeçando escada abaixo, olha isso, logo depois de dizer Ei, companheiro, eu te seguro! e caio bem em cima dela -- está em pé, fazendo todo um teatro -- e quando percebo o que fiz, digo: perdão, achei que fosse uma almofada! -- os braços vão à cabeça e a careta de criança arteira completam o show, e as mulheres riem ridiculamente.
-- Você é muito esquisito! -- diz Cíntia, mordendo os lábios.

Com as últimas forças do seu aparato da razão o homem faz uma conta mental em reais. Satisfeito com o resultado, ele passa os braços pelas cinturas de suas companheiras, aperta com gosto suas bundas ganhando ais e uis e faces de apenas meia reprovação e completa.

-- Vamos, mulheres, hoje é o dia do prazer.

E as leva para a pista de dança, iniciando ou finalizando o processo fatal, assinando o contrato cujos termos veio discutir, realizando o comércio de homes e mulheres sem remorso ou culpa pelo simultâneo desejo e desinteresse, glamour e grosseria, pois a fantasia do amor, do pouco que lhe restou após meia vida de erros, foi finalmente cremado e jogado em cinzas ao mar do uísque ao som da música eletrônica em um funeral atendido pela irmandade nem um pouco secreta dos que vivem como podem em meio às satisfações e as necessidades, fingindo ter importância aquilo que é mera aparência, tornando totalmente aparência aquilo que é no fundo valor, saudando aquelas cinzas arrastadas pelas ondas que deixam para trás um corpo a ser preenchido por sucessivos instantes de paixão e fúria intercalados por eternidades do mais puro tédio.