Elite, temei II
Essa discussão sobre o endurecimento das punições está me irritando um pouco. Reconheço sem vergonha o nicho que me cabe nessa discussão, o de "esquerdista bonzinho", freqüentemente acusado de "defender os vilões com argumentos sociológicos furados".
Pode até ser.
Mas eu acho, por outro lado, ridículas todas essas pessoas que surgiram no debate com sua indignação sobre o crime no Rio de Janeiro. Ridículas mesmo. Por que elas reagem como se, de uma hora para a outra, a situação houvesse chegado a um ponto inaceitável.
Com vinte anos de idade eu já discutia sobre formar ou não formar família no Rio de Janeiro sob a perspectiva da segurança pública. A morte violenta do guri que houve recentemente me choca como ser humano mas não me choca como cidadão; ela não é, para mim, um acontecimento particularmente excepcional.
Repito: a morte violenta desse guri não me atingiu como um acontecimento particularmente excepcional. Travo conhecimento de mortes violentas de adultos e crianças dia sim, dia não. Arrisco afirmar que se você subitamente se impressionou com a violência do Rio de Janeiro ou não mora no Rio de Janeiro, ou é está alienado da realidade do povo da cidade.
A minha opinião geral sobre a mobilização do legislativo nesse caso é a mesma do Luis Hamilton nos comentários ao artigo do Alon:
"É horrível. Merecem longos anos de cadeia e espero que tenham. Mas é UM caso. Por triste e por revoltante que seja, para discutirmos políticas públicas, é insuficiente."Um dos últimos comentários diz: "Quando eu era mais jovem e impetuoso, tive um professor ingles que me ensinou muito, mas muito de medicina. E uma tirada dele me marcou: 'Porque é que os brasileiros querem sempre mudar uma técnica antes de aprendê-la?'" Me surpreendi quando o autor prosseguiu para defender, sob essa tese, que deveria haver pena de morte no Brasil, já que outros países a utilizam. Por que eu imaginei instantaneamente a atuação do governo e da sociedade nesse caso: temos lei penal e ao invés de aprendermos a aplicar a lei reagimos a qualquer escândalo mudando a lei.
Novamente o Luis Hamilton:
"Mas o problema reside muito mais na sua aplicação. Se pegássemos toda a energia que temos gasto em discutir coisas acessórias, para obter dos diversos governos compromissos REAIS com a APLICAÇÃO das leis que já existem, seguramente teríamos uma redução da criminalidade."Continuando, o José Augusto:
"Quando "endeusamos" o legislativo como grande solucionador do problema, estamos (sem querer) endossando o orçamento de R$ 6 bilhões ao ano do Congresso, em detrimento do orçamento necessário para cumprir o lei das execuções penais, para cumprir o próprio ECA, para viabilizar o SUSP, etc."Eu não saberia dizer quanto tempo deve cada "tipo" de criminosos ficar excluído do convívio social, ou quanto dinheiro se deve ou não deve entregar ao Congresso para trabalhar, mas acredito que toda essa discussão sobre o endurecimento da lei penal é ridícula em uma sociedade incapaz de aplicar sua supostamente branda lei penal.
Repito: essa discussão sobre o endurecimento da lei penal é ridícula em uma sociedade incapaz de aplicar sua supostamente branda lei penal. Se eu não tenho capacidade de aplicar uma leve força eu não tenho capacidade de aplicar uma pesada força.
Ou pior: se, diante da minha pouca força, a força que me resta é aplicada seletivamente e de forma excludente quando for necessário aplicar mais força, o que acontecerá? Alguém aqui acredita realmente que a nossa nova, mais "justa" legislação penal realmente seria aplicada aos assassinos do índio Galdino, episódio recentemente relembrado para defender a causa do endurecimento?
Estes são os problemas dos críticos "evasivos" que "ficam rodeando e se lamentando do tema estar em debate". Eu acho lamentável esse tema estar em debate e acho lamentável que haja quem acredite que nosso problema é falta de debate e falta de legislação.
Eu estou aqui no Rio de Janeiro e não estou vendo a polícia aplicar a lei atual. Quem vai me dizer que o meu problema é falta de legislação? Meu problema é falta de polícia. Eu estou lá na Uruguaiana na minha hora de trabalho, eu ando lá pela praça Mauá e adjacências para almoçar. Eu vou visitar amigos em Benfica.
E estou ainda assim bem longe da vida do povo. Mas ouço as histórias. Quem está indignado com a violência no Rio de Janeiro é o pessoal da Gávea, do Leblon, que provavelmente ficaria indignado também de ver um policial decendo o cacetete em um moleque de rua sem motivo. Mas isso não surpreende mais a plebe.
Se é pra fazer afirmações generalizantes sobre o brasileiro eu faço essa: o mal do brasileiro é achar que regulamento resolve problema. Aplicação de regulamento resolve problema.

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