Calibrar
Calibrar é uma palavra interessante.
Estou acumulando um vocabulário meio estranho ao longo do tempo para descrever coisas que eu acho que passam desapercebidas -- como a diferença entre estudar e treinar.
Por exemplo, tome uma pessoa nervosa.
Eu não acredito que a melhor coisa a dizer é: você deve aprender a se acalmar.
Talvez até haja realmente um sentido para "aprender a se acalmar" -- contar de um a dez, sei lá -- mas qualquer sentido que haja ele sempre será reativo, o que fazer para me acalmar depois que já fiquei nervoso.
Agora, tome por exemplo: você deve aprender a calibrar o seu nervosismo.
Está claro agora que o problema não é atingir um estado nervoso mas sob que condições isso acontece.
É dizer: essa situação não justifica o nervosismo.
A imagem da calibragem é a imagem do instrumento de medida que possui um marco zero que deve concordar com os outros instrumentos e que deve representar um estado razoável das coisas.
O aparelho emocional é um instrumento de medida, de certa forma, de uma série de condições.
Ali nasce, por exemplo, o medo; dada uma certa quantidade de perigo o nosso corpo reage alcançando o estado do medo.
Mas quanto perigo é necessário para você atingir o medo? Essa quantidade de perigo é razoável? Se ela não for razoável você pode vir a sentir medo excessivamente -- e o medo é útil durante o perigo mas não é útil durante uma oportunidade arriscada de sucesso.
Meu interesse em disciplinas esotéricas, por exemplo, tem total ligação com esta palavra calibrar. A muitos anos atrás lendo um livro altamente esotérico eu tive o insight de que por baixo de toda a parafernália esotérica que o texto propunha ao leitor havia esta certa insistência em práticas e exercícios cujo propósito implícito era calibrar o emocional do indivíduo para tornar a sua empatia mais eficaz.
Pesquisando em outros lugares e culturas encontrei exatamente a mesma proposta: calibrar o estado emocional do indivíduo.
Outro lugar onde calibrar surgiu recentemente foi em um curso de Análise Orientada a Objetos. Durante as muitas aulas sobre os Casos de Uso o professor corrigiu os nossos diagramas, freqüentemente eliminando muitos elementos desnecessários.
Todas as vezes que ele fazia isso dizia: vocês precisam ajustar sua noção de nível apropriado de abstração.
Calibrar o medidor de nível apropriado de abstração, talvez.
Isso é diferente de aprender. Aprender é próximo a memorizar, porque aprender é da ordem do raciocínio. Calibrar é da ordem das emoções, de onde parte o impulso artístico.
Esse impulso está presente em absolutamente todas as atividades, inclusive na programação -- porque é sempre necessário tomar uma decisão sobre como representar as coisas, e tanto faz uma representação ou outra para o computador, porém a representação mais adequada torna o trabalhos dos seres humanos fácil e até agradável.
O mesmo acontece na matemática onde se fala sobre uma demonstração elegante.
As demonstrações elegantes são fáceis de entender e ensinar.
Vi recentemente um trecho de texto excelente em um seriado particularmente idiota na televisão em que uma mãe desiludida dizia ao filho: eu não consigo entender como as coisas vieram a acontecer dessa maneira, eu fiz tanto esforço para ensinar a vocês a diferença entre o certo e o errado...
E o filho respondeu: mãe, você fez tudo direitinho, nós sabemos a diferença entre o certo e o errado; só acontece que nós escolhemos o errado.
Mas vamos parar por aqui, perigosamento perto de discutir a noção do que é importante (e do que é querer).

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