Devaneio no. 5
Estava dentro do ônibus. Paguei a passagem com moedas, trocadinhas. Eles entraram depois, puxaram armas, e escolheram me abordar. Eu digo, Cara, eu paguei a passagem com trocados, me dá um tempo, e ele diz, Sei, mostra a carteira logo, mermão, e eu mostro a carteira e tem quarenta pratas lá dentro.
Olha o engraçadinho, malandro, diz um, e o outro diz Desce do buzão, ô filho da puta, eu olho ao redor, o ônibus está cheio de gente, e decido começar a confusão lá fora. Desço do ônibus. O sujeito desce atrás de mim.
Salto do ônibus e me volto para a porta. Ele salta do ônibus e eu acerto um chute rápido na mão que segura a arma e desço o chute forte na boca do estômago. Ele atira por reflexo, acerta uma parede, e logo depois cai no chão. Eu corro, dou a volta no ônibus para ganhar tempo, alcanço a calçada, passo por trás de uma pilastra de concreto, os estalos da pistola continuamente no ambiente, corro por uma longa calçada em direção às escadas, com uma sensação crescente de queimadura nas costas.
Me arrasto pela escada acima com a respiração interrompida pelo sangue que preenche o meu pulmão. Cambaleio até o meio da via expressa e quase sou atropelado por um taxi. Caio no chão sem forças, mal vendo o motorista do taxi saltar do carro e se aproximar e ouço seus pensamentos mal acabados sobre um novo estofado de couro e sujeira de sangue e muito dinheiro enquanto ele me arrasta para o meio fio.
Largado naquele chão de concreto vendo o taxi seguir seu rumo penso Caralho, aprendi a telepatia, e então tudo fica escuro e em silêncio.
[Concebido durante e após uma aula na pós-graduação simultaneamente ao Devaneio no. 4, que é uma declaração de amor. Aquela aula foi muito chata.]

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