Importância
Já a alguns meses, eu sou responsável por uma sessão semanal de treino de kung fu; responsável porque, sendo o mais antigo, espera-se que eu seja como o irmão mais velho quando os pais não estão presentes.
Meus irmãos mais novos gostam de treinar kung fu e isto me dá oportunidade de entrar em contato próximo com suas expectativas e ansiedades; nesse processo, muitas coisas estranhas acontecem.
De certa forma, a arte marcial é como qualquer outro tipo de arte; por um lado, a execução da arte é matéria de habilidade, enquanto por outro lado ela é inspiração, instinto e emoção. Essas são coisas de que a nossa cultura não trata.
Durante o almoço, conversando com meus colegas sobre instrumentos musicais, chegamos a um ponto de pouca controvérsia: aprender um instrumento musical é exercitar o corpo para adequá-lo àquela execução. Isso é difícil porque é difícil se disciplinar, é difícil adequar o comportamento, é difícil... bem.
Por mais que eu seja um ser inteligente, capaz de refletir a minha impressão do mundo em pensamento, ainda assim sou um ser que se comporta de maneira tal; é irrelevante que se pense "você deve ser assim", ou "o ideal é fazer desse jeito" ou mesmo "putz, queria tanto fazer como ele". O conhecimento é um fator determinante para a ação mas ele é um fator praticamente irrelevante diante de um universo silencioso de tendências, hábitos e características intrínsecas.
Eu não sou capaz de ser qualquer coisa; em particular, eu não sou capaz de não ser eu. Isso parece contraditório diante da idéia de "aprendizado" mas eu penso que a própria idéia de "aprendizado" é contraditória, a idéia de que através de algum processo você "melhora", deixa de ser, digamos, mau, e passa a ser bom.
É certo que eu deixo de ser como era ontem e passo a ser como serei amanhã, porém. A minha percepção, em particular, é de que a cada dia meu poder aumenta. Porém, isso é de se esperar, já que eu sou arrogante; e quando deixarei de ser?
Em combate os nervos afloram, a violência encontra os caminhos das profundezas até a flor da pele, e você se percebe com uma vontade insuportável de machucar uma pessoa que, de outro modo, é muito querida.
Em reunião você retruca e critica o outro, construindo pra si um pedestal moral ou uma vitória épica, porque ser ideal e ser vitorioso é tão desejável que a construção do outro como incompetente, irrelvante ou fraco não é tanto aceitável como... consequente.
Qual é o significado de ser melhor? É certo que parte do eu é ser bom e dar prazer àqueles que são queridos; o que é, por outro lado, deixar de ser, digamos, mau humorado pelo outro? Ou introspectivo?
Diante de um colega em treino de arte marcial, faz sentido não ser agressivo naquele dia em que você está agressivo? O que é conversar com uma pessoa querida e se irritar com algo que você ouviu e então pensar "não vou me irritar porque me irritar é errado"?
Acredito que todo relacionamento possui uma dinâmica fraca ou forte em que o poder se alterna entre líder e liderado, entre aquele que é responsável pela saúde do relacionamento e aquele que é o "estagiário" da situação; especialmente entre as pessoas jovens, é ingenuidade acreditar que será possível encontrar um relacionamento que simplesmente "é", "funciona" e pronto.
Porém, é contraditório que se viva o tempo para construir o mundo constantemente; que a vida seja preenchida por um constante liderar da situação em direção ao que será, e ainda não é, a própria vida; isso é viver para o futuro. É como aquele que ganha dinheiro e guarda para, um dia, gastar; quando é esse dia?
Quanta sabedoria você acumulará até que chegue o dia em que você se permite se irritar quando você se irritar?
Esses questionamentos são insuportáveis, como todos os outros, na medida em que circularmente criticam justamente a atitude que os produz.
A muito tempo atrás eu disse a uma pessoa importante que eu era como se descreveu Kenshin Himura no Seisouhen OVA: uma espada sem bainha, nunca guardada, nunca descansando, sempre prestes a cortar em pedaços.
Às vezes eu penso que o que eu preciso é ser salvo de mim mesmo. Este pensamento é circularmente perfeito para uma pessoa cujo senso de importância está sempre focado no outro.

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