Quarta-feira, Abril 01, 2009

Mais sobre a Vontade

Sendo um Thelemita, ou um Telemita se você preferir, é natural que o problema de "fazer a própria vontade" seja constantemente trazido de volta à atenção.

Um dos aspectos mais intrigantes sobre esse problema é o de se observar que, dado um conceito do que é a Vontade de um ser humano, todos sempre fazem a própria vontade, a todo momento, invariavelmente.

Isto é assim se você entende por Vontade justamente aquele aspecto do ser humano que o mobiliza, e se você entende a mobilidade de um ser humano é sempre baseada na mobilidade do seu corpo, isto é, tudo o que um ser humano faz é, no fim das contas, algo que seu corpo faz.

Nós sabemos que o corpo humano é movido através de uma intrigante interação entre ossos, fibras musculares e neurônios. O corpo se move porque o cérebro comunica aos neurônios que comuniquem às fibras musculares que se contraiam ou relaxem, de tal modo que os ossos são puxados uns para perto dos outros ou largados à mercê da gravidade, o que por fim tem o impressionante efeito final de fazer o corpo inteiro, ou parte dele, se mover.

Assim sendo, qual é o sentido em dizer que uma pessoa não está fazendo sua própria vontade, ou que não está fazendo aquilo que ela quer? Nenhum.

Porém, é indiscutível que praticamente todas as pessoas tem a experiência desagradável de que não estão fazendo algo porque querem. Uma das razões porque isso é assim é porque a pessoa em questão se percebe enredada por algum poder que a coage de alguma maneira.

Acredito que um dos motivos porque o crime de violência física é tido como abominável, em comparação com crimes chamados "colarinho branco" que, não obstante, tem um impacto negativo em um número bem maior de pessoas.

Crimes de violência física atuam diretamente sobre a liberdade do corpo de um ser humano; quando eu, que sou forte, agarro o braço de uma outra pessoa, que é fraca, esta outra pessoa se vẽ privada da liberdade de ir para longe de mim.

Agora, quando uma operadora de telefonia inflige a um indivíduo cobranças indevidas mês após mês, transtornando essa pessoa horrores com a necessidade de falar horas a fio com um burocrata, esse mal se refletirá em uma multa. Entendo que isto é assim em parte porque, fora todas as outras considerações relevantes, há pouca violação na liberdade dos corpos aqui; o indivíduo continua sempre com a opção de se afastar, de romper o relacionamento.

Existem outros aspectos interessantes desse problema, como a pedagogia. Muito se fala superficialmente sobre convencer o aluno a entender os assuntos, ao invés de decorar as informações, mas pouco se fala sobre o uso do verbo convencer nessa história. Existe algo de seduzir no ato de educar. Alguém que ainda não compreende não tem como saber o valor daquilo que irá um dia compreender, se cumprir as regras de um processo pedagógico. Essa pessoa atravessará esse processo porque motivo? Uma das maneiras de fazer isso é através do medo, outra através da sedução. Haverá quem diga que uma coisa é instância particular da outra.

Em todos esses casos há algo de privação da liberdade do outro envolvido, o que nos leva de volta a pensar, nesses casos, como é possível que uma pessoa faça sempre sua vontade. (Fazer às vezes sua vontade não faz sentido como regra fundamental de uma ética.)

2 comentários:

Kore disse...

A sua vontade é sua mesmo? você é realmente livre pra fazer a sua vontade?
Não estou falando das imposições de sociedade nem nada.
Eu pergunto se a sua vontade ou o que você entende como sua vontade é realmente sua.
Me perguntaram isso outro dia e eu posso dizer com sinceridade que não faço mais idéias.
A idéia de sermos marionetes não me agrada, mas a idéia de sermos completamente livres também não me parece real.
Isso partindo do principio que há realidade, etc, etc.
Thoth, precisamos voltar a discutir sobre o céu,a terra, a água e o ar.
bjs.

P. disse...

Vontade, nesse contexto, deve ser um atributo do ser humano.

Dizer Vontade Livre, como no inglês Free Will, me parece um conceito além, já que imbui a expressão da problemática da liberdade.

Eu não acho que a pergunta tem uma resposta no eixo do arbítrio livre/não-livre, ao contrário do que este "post" deixa parecer.

Ao observar um ser humano atuando no mundo, enquanto for possível identificar Propósito ou Significado no que ele está fazendo, é imediato identificar uma Vontade como atributo deste ser humano.