Na outra semana estivemos no mo kwoon com um colega novo, aprendendo os primeiros mistérios do kung fu.
Este novo colega, julguei, se enquadrou facilmente no grupo dos afobados; sempre seu discurso o convidava a dar "exemplos" do golpeamentos, e cada um deles mais e mais próximo do corpo da pessoa com quem estava conversando. Assim é a ansiedade de quem conhece a arte marcial através de romances e obras audio-visuais.
Em um determinado momento, discutindo os princípios do ving tsun, este novo colega levantou uma questão sobre a eficácia de um posicionamento defensivo: por mais que o outro esteja posicionado adequadamente, eu posso desarmá-lo sendo bem rápido, não posso?
A objeção padrão a esse tipo de hipótese é simples: e se o outro for tão rápido quanto você? Há diversos caminhos interessantes de discussão que iniciam com essa resposta.
Nesse dia, porém, me sentido inspirado para falar sobre a minha experiência pessoal. Isso acontece às vezes durante a aula e eu me dou a liberdade de falar porque, sendo um igual, me parece inspirador para os mais novos ouvir sobre as minhas dificuldades e realizações.
Elaborando o meu relato, eis o que eu tenho a dizer sobre o assunto.
É claro o poder de agir em alta velocidade é útil e desejável. Mas a percepção de que este poder é o grande poder, ou mesmo o verdadeiro poder, é enganosa. Em particular, os modos de viver e produzir em nossa sociedade constróem um excesso de valor sobre este poder em particular; além do grande apelo dramático de certos filmes.
Quando eu comecei a treinar artes marciais logo se tornou evidente uma quantidade enorme de tensão no meu corpo. Esta tensão habitava, porém, um corpo vazio do impulso de agir -- o período de treinamento mais particularmente focalizado em "golpear" parecia quase totalmente inútil.
Mas, como inevitável, em um determinado momento a tensão encontrou seu caminho e se tornou então evidente a ansiedade por agir que estava contendo. É ainda verdade que passo boa parte do meu tempo resolvendo uma ansiedade por agir. Essa ansiedade não resolvida se resolve em impulsos de ação -- de súbito, uma vontade de ler, de súbito, uma vontade de falar, de súbito, uma vontade de produzir, de súbito, uma vontade de não fazer nada.
Se você está convencido de que esse modo de ser é razoável, então o poder de agir e completar ações em alta velocidade parecerá o ideal da vida. Afinal, se um determinado surto de ação dura pouco, é preciso fazer muito com esse pouco. Assim, quem vive de ansiedades em ansiedades realiza pouco, porque não se pode fazer muito em pouco tempo.
Estrategicamente, podemos enxergar nessa pessoa a empresa que se vê presa na teia do time to market. Essa empresa está sempre se "reajustando" ao "mercado", mudando de rumo de acordo com suas "tendências", se "alinhando" com cliente. A cada momento suas prioridares são reavaliadas e alguma outra coisa se torna prioridade máxima.
Esta empresa nunca realizará as atividades com prioridade não-máxima, nunca realizará os projetos de médio a longo prazo. Ela está cheia da ansiedade por obter os resultados cuja possibilidade só passou a enxergar hoje. Está sempre correndo atrás de algum prejuízo.
Ela não compreende que a possibilidade que se realiza hoje está amadurecendo desde a tempo passado. Se ela vê hoje as condições de formação da possibilidade futura, poderá agir para obter os resultados do futuro. O indivíduo que se interessa por uma atividade hoje, se trabalhar com paciência, poderá realizar as grandes coisas que exigem muitos dias de atenção.
Assim, enquanto é sempre possível resolver as crises e se adequar às mutações através da habilidade da rapidez, é também sempre possível resolver as crises e se adequar às mutações através da habilidade da lentidão. Atuar com lentidão exige -- permite! -- atuar com antecipação. Para atuar com antecipação, é preciso ser lento; para atuar com antecipação, é preciso acompanhar com cuidado as correntes das mutações; não se precipitar.
Não é fácil atuar com lentidão, o que pode não parecer intuitivo. Quando o indivíduo experimenta exercícios simples, como andar a um passo com metade da velocidade do seu passo normal, ele compreende rapidamente que a ansiedade é uma propriedade fundamental do seu corpo -- não obstante a quantidade que ocorre em um e em outro.
Mesmo a alta velocidade corporal exige o lento acomodamento da mente à situação; quando a mente é um turbilhão, não é possível agir em alta velocidade sob controle; citando um belo anime, quando um guerreiro usa suas armas fora de controle, ele pode cortar algo que não deseja cortar, ou mesmo cortar aquilo que ele deve defender.
Se tornou, então, foco do meu treinamento em artes marciais a habilidade de agir lentamente, com eficiência. Pelas razões expostas acima, agir lentamente com eficiência não é uma contradição. É um objetivo necessário a quem acumula tensão e ansiedade; provavelmente seria diferente para disposições pessoais diferentes.